Dizem que a mulher é mais mulher depois dos 30 anos. E de repente, ando me descobrindo no tempo. Antes, vivia no espaço, sem pensar nos minutos, nos dias. E viver no espaço é mais fácil e deslizante. Planar sem medo pela existência. Agora, vejo mais qualidade que quantidade. Tomo goles a menos. E não tenho mais turmas por onde passo, apenas poucos e bons amigos. Hoje depois de tantas aventuras por terras desconhecidas já consegui me autocartografar por inteira. Eu sei quem eu sou. Descobri outra dimensão além dos dedos da mão. E de repente percebi que mesmo juntando os dedos dos pés não consigo dizer a minha idade. Eu não olho mais para o passado, planejo o futuro. E vejo que aquele sonho de viajar o mundo sem roteiro ficou para trás, hoje eu quero uma família. Carrego na minha mala festas, viagens, namoros, bebedeiras, boas e más amizades, além de histórias hilárias. Amei, fui amada e já sofri. Escolhi minha profissão e até hoje não ganhei dinheiro com ela. E ainda não consegui me organizar financeiramente e juntar ao menos R$ 0,50 por mês. A mulher que me tornei prefere sabores requintados ao hot dog. Come bastante pimenta e mostarda sem fazer careta. E tem 10kg a mais que não consegue perder, jogar no lixo. Mas essa mesma mulher, ainda não conheceu outros países, não subiu o Cristo Redentor, não conseguiu o emprego dos sonhos e ainda não foi mãe [meu maior desejo]. E tantos e tantos outros projetos e sonhos. A mulher que eu sou hoje sabe que pode conseguir tudo que deseja, basta trabalhar e ter fé. Não sou madura ainda, digamos que estou ficando doce mas ainda não caí do pé. Estou pronta para aprender com a fase dos 30, ou mais. A minha mãe sempre diz que essa foi a melhor fase da vida dela, onde ela se sentiu mais mulher, mais segura. Acho que isso deve ser genético.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
sábado, 28 de agosto de 2010
Eu, Alice
Eu queria viver no mundo de Alice. Um universo caótico [ficcional] feito de fantasia. Nada real, nada a ver com coisa alguma. O País das Maravilhas convida ao estranhamento do mundo desligando Alice [nós] da realidade, que nem sempre é boa — nem sempre é feliz. Os encontros dela nos chamam para usar a capacidade de reordenar as significações, redefinindo nossos próprios limites. E eu preciso disso. Conselhos de uma Lagarta, filosofia profunda que está posta a própria existência em questão. Transformações sofridas e encontros no mínimo inusitados na toca do coelho, longe da família, da escola, das atividades e círculos sociais próximos, a resposta poderá ser errada, porque requer de Alice retomar a própria essência — desconcerto, confrontando sem desvelar-se. Assim como Alice, eu quero desarticular o mundo instituído, sem respostas socialmente aceitas e esvaziadas de significação. Ah, eu tive um sonho tão esquisito! — diz Alice. E assim eu acordasse do sonho para viver a realidade, mas com a capacidade de me maravilhar com as pequenas coisas da vida.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Medo de quê?
Não tenha medo de me perder — seu medo me perde de mim mesma. E de você. Se falares mais, posso me esvair sem que você perceba. Então se debruce sobre o que estamos vivendo, e me olha como sua. Não toma conta apenas do espaço — me toma. Diga quem manda. Seguro — me segure firme. Só assim serei sua por inteiro.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
"Eu vi a mulher preparando outra pessoa..."
E sem entender ao certo o que estava acontecendo, descobriu que alguém estava crescendo dentro dela. O resultado foi positivo. E pensou que ela já não era mais criança, adolescente, mulher e esposa. Ela ia ser mãe, e sua história agora sim iria começar. Os pensamentos flutuavam enquanto a família e os amigos estavam radiantes de felicidade. E lá, dentro dela, o amor passou a existir em sua plenitude.
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(Algumas histórias se repetem na vida de toda mulher. Mas essa ainda não é minha história...ela hoje tem dona e eu sou uma das radiantes amigas)
sábado, 21 de agosto de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Debaixo do braço
Acordes quem sôam com uma velha cantada. O som seduz numa linguagem que só o coração compreende. O violão é o vilão das boas maneiras e das boas moças.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Início do início
Os dois apenas se entreolhavam durante um beijo e outro no sofá da sala. Amassos e abraços. Sussurravam mais do que conversavam — pouco tempo iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos e não sabiam que nome dar ao que estavam sentindo — apenas sabiam que ainda não era o amor. Era algo sem nome. Ela raramente se presenteava com sentimentos que não tem nome. O suor escorria do rosto e as palavras continuavam mudas naquele velho sofá. Para quebrar o silêncio, ele contava piadas e mais piadas sem graça, apenas para vê-la sorrir. E inventava histórias sobre o futuro dos dois para dar esperança de um final feliz para aquele tão breve romance. E isso amedrontava ela, pois um dia já sonhou demais ao ponto de confundir a realidade — tinha medo — medo de se ver nele. Ela não tinha como esconder de si mesma a embriaguez de estarem juntos. E a vontade da sua presença. Ele gostava das bebidas mais fortes sem moderação, das idéias mais complexas e dos sentimentos mais intensos, e apesar de dar medo de uma certa maneira a inspirava. A coragem de ousar é inspiradora. Ele queria mais dela. Ele queria ela na sua vida. E a vida queria fazê-la aprender a enxergar com os olhos do equilíbrio. Equilíbrio entre o coração e a razão. Ela riu sem graça para ele, apagou a luz da sala, e voltou a beijá-lo sem pensar em mais nada.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Fé
Pressupõe que existem mais coisas entre o céu e a terra. Mas nunca viu, ouviu ou sequer tocou — mas sentiu — perfumando a sua existência. Sentia que precisava de ajuda. Dos que não se pode ver, apenas crer. Da luz que não se limita ao fim do túnel. Da fé inabalável. Precisava perceber que nunca estamos sozinhos. Ela vem aprendendo — aprendendo a caminhar.
domingo, 15 de agosto de 2010
Ninguém duvide
Eu quero sentir como você e aprender a amar novamente — suspirou e baixou os olhos com timidez. E ninguém duvide — ninguém, ninguém — dos meigos olhos que suspiravam. E do coração ainda capaz de amar.
domingo, 8 de agosto de 2010
Prece de Cáritas
Deus, nosso Pai, que Sois todo poder e bondade, daí força àquele que passa pela provação, dai a luz àquele que procura a verdade, ponde no coração do homem a compaixão e a caridade.
Deus! Dai ao viajor a estrela guia, ao aflito a consolação, ao doente o repouso. Pai! Dai ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, à criança o guia, ao órfão o pai. Senhor! Que vossa bondade se estenda sobre tudo o que criastes.
Piedade, Senhor, para aqueles que não Vos conhecem; esperança para aqueles que sofrem. Que vossa bondade permita aos espíritos consoladores derramarem por toda parte a paz, a esperança e a fé. Deus! Um raio, uma faísca do Vosso amor pode abrasar a terra. Deixai-nos beber das fontes desta bondade fecunda e infinita e todas as lágrimas secarão, todas as dores acalmar-se-ão. Um só coração, um só pensamento subirá até Vós, como um grito de reconhecimento e de amor. Como Moisés sobre a montanha, nós Vos esperamos com os braços abertos, Oh! Poder. Oh! Bondade. Oh! Beleza. Oh! Perfeição. E queremos de alguma sorte, alcançar Vossa misericórdia.
Deus! Dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos até Vós; dai-nos a caridade pura; dai-nos a fé e a razão, dai-nos a simplicidade que fará de nossas almas o espelho onde se deve refletir Vossa imagem.
Deus! Dai ao viajor a estrela guia, ao aflito a consolação, ao doente o repouso. Pai! Dai ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, à criança o guia, ao órfão o pai. Senhor! Que vossa bondade se estenda sobre tudo o que criastes.
Piedade, Senhor, para aqueles que não Vos conhecem; esperança para aqueles que sofrem. Que vossa bondade permita aos espíritos consoladores derramarem por toda parte a paz, a esperança e a fé. Deus! Um raio, uma faísca do Vosso amor pode abrasar a terra. Deixai-nos beber das fontes desta bondade fecunda e infinita e todas as lágrimas secarão, todas as dores acalmar-se-ão. Um só coração, um só pensamento subirá até Vós, como um grito de reconhecimento e de amor. Como Moisés sobre a montanha, nós Vos esperamos com os braços abertos, Oh! Poder. Oh! Bondade. Oh! Beleza. Oh! Perfeição. E queremos de alguma sorte, alcançar Vossa misericórdia.
Deus! Dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos até Vós; dai-nos a caridade pura; dai-nos a fé e a razão, dai-nos a simplicidade que fará de nossas almas o espelho onde se deve refletir Vossa imagem.
Espírito: CÁRITAS
Médium: Madame W. Krill – Bordeaux – França
Psicografada em 25 de dezembro de 1873
Que essa oração possa ajudar a quem precisa de fé.
domingo, 1 de agosto de 2010
Flor de Obsessão
Texto de Nelson Rodrigues
- O adulto não existe. O homem é o menino perene.
- Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.
- A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real.
- Amar é ser fiel a quem nos trai.
- Toda autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto.
- Só acredito na bondade que ri. Todo santo devia ser jucundo como um abade da Brahma.
- O brasileiro é um feriado.
- Os jardins de Burle Marx não têm flores. Têm gramados e não flores. Mas para que grama, se não somos cabras?
- A burrice é a pior forma de loucura.
- No Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O Otto Lara está certo. O mineiro só é solidário no câncer.
- O carioca é o único sujeito capaz de berrar confidências secretíssimas de uma calçada para outra calçada.
- Num casal, pior que o ódio, é a falta de amor.
- O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira.
- Geralmente, o puxa-saco dá um marido e tanto.
- O carioca é um extrovertido ululante.
- As bodas de prata são, via de regra, uma festa cínica que finge comemorar um amor enterrado.
- O pior cego é o surdo. Tirem o som de uma paisagem e não haverá mais paisagem.
- Os que choram pouco, ou não choram nunca, acabarão apodrecendo em vida.
- Gosto do cigarro que me queime a garganta. O fumo suave não passa de um ópio de gafieira.
- Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
- Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.
- Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.
- Numa simples ginga de Didi, há toda uma nostalgia de gafieiras eternas.
- Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação.
- Djalma Santos põe, no seu arremesso lateral, toda a paixão de um Cristo negro.
- A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.
- Eu, como artista, se tivesse de escolher um epitáfio, optaria pelo seguinte: — "Aqui jaz Nelson Rodrigues, assassinado pelos imbecis de ambos os sexos".
- Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado.
- Não há ninguém mais bobo do que um esquerdista sincero. Ele não sabe nada. Apenas aceita o que meia dúzia de imbecis lhe dão para dizer.
- Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.
- A família é o inferno de todos nós.
- A fidelidade devia ser facultativa.
- O gordo só é cruel na mesa, diante do prato, com o guardanapo a pender-lhe do pescoço.
- D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva.
- Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:— quatorze anos!
- O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho.
- Hoje, a primeira noite é a centésima, a qüinquagésima. O casamento já é uma rotina antes de começar.
- O ser humano está mais para Lucho Gatica do que para Paul Valéry.
- O que se está fazendo aqui é uma música popular brasileira que não é popular, nem brasileira e vou além: — nem música.
- Aqui o branco não gosta do preto; e o preto também não gosta do preto.
- Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.
- Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.
- O pobre, para sobreviver, precisa da pornografia.
- O presidente que deixa o poder passa a ser, automaticamente, um chato.
- O ônibus apinhado é o túmulo do pudor.
- É impossível ser ridículo dentro de uma Mercedes.
- Num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.
- A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.
- No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, se quiserem acreditar, vaia-se até mulher nua.
- Uma dor de viúva dura 48 horas.
- Todo óbvio é ululante.
- Toda mulher gosta de apanhar. O homem é que não gosta de bater.
- O adulto não existe. O homem é o menino perene.
- Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.
- A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real.
- Amar é ser fiel a quem nos trai.
- Toda autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto.
- Só acredito na bondade que ri. Todo santo devia ser jucundo como um abade da Brahma.
- O brasileiro é um feriado.
- Os jardins de Burle Marx não têm flores. Têm gramados e não flores. Mas para que grama, se não somos cabras?
- A burrice é a pior forma de loucura.
- No Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O Otto Lara está certo. O mineiro só é solidário no câncer.
- O carioca é o único sujeito capaz de berrar confidências secretíssimas de uma calçada para outra calçada.
- Num casal, pior que o ódio, é a falta de amor.
- O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira.
- Geralmente, o puxa-saco dá um marido e tanto.
- O carioca é um extrovertido ululante.
- As bodas de prata são, via de regra, uma festa cínica que finge comemorar um amor enterrado.
- O pior cego é o surdo. Tirem o som de uma paisagem e não haverá mais paisagem.
- Os que choram pouco, ou não choram nunca, acabarão apodrecendo em vida.
- Gosto do cigarro que me queime a garganta. O fumo suave não passa de um ópio de gafieira.
- Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
- Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.
- Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.
- Numa simples ginga de Didi, há toda uma nostalgia de gafieiras eternas.
- Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação.
- Djalma Santos põe, no seu arremesso lateral, toda a paixão de um Cristo negro.
- A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.
- Eu, como artista, se tivesse de escolher um epitáfio, optaria pelo seguinte: — "Aqui jaz Nelson Rodrigues, assassinado pelos imbecis de ambos os sexos".
- Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado.
- Não há ninguém mais bobo do que um esquerdista sincero. Ele não sabe nada. Apenas aceita o que meia dúzia de imbecis lhe dão para dizer.
- Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.
- A família é o inferno de todos nós.
- A fidelidade devia ser facultativa.
- O gordo só é cruel na mesa, diante do prato, com o guardanapo a pender-lhe do pescoço.
- D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva.
- Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:— quatorze anos!
- O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho.
- Hoje, a primeira noite é a centésima, a qüinquagésima. O casamento já é uma rotina antes de começar.
- O ser humano está mais para Lucho Gatica do que para Paul Valéry.
- O que se está fazendo aqui é uma música popular brasileira que não é popular, nem brasileira e vou além: — nem música.
- Aqui o branco não gosta do preto; e o preto também não gosta do preto.
- Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.
- Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.
- O pobre, para sobreviver, precisa da pornografia.
- O presidente que deixa o poder passa a ser, automaticamente, um chato.
- O ônibus apinhado é o túmulo do pudor.
- É impossível ser ridículo dentro de uma Mercedes.
- Num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.
- A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.
- No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, se quiserem acreditar, vaia-se até mulher nua.
- Uma dor de viúva dura 48 horas.
- Todo óbvio é ululante.
- Toda mulher gosta de apanhar. O homem é que não gosta de bater.
domingo, 18 de julho de 2010
Vôo dos sonhos
Menina dos olhos tristes. Pés descalços na areia. Rosto lânguido. Vestidinho encarnado, velhinho, velhinho... Cabelos emaranhados. Doce como toda criança. Não tinha bonecas ou laços de fita. Nem lápis coloridos. A barriga dóia de fome. Nada queria além de amor. E o amor era poder ser criança. Não entendia os motivos. Ela sentava no chão e quietinha pensava em como tudo poderia ser difente. Ela tinha o dom de voar. Voava como passarinho. Era do vento. Pousava a cabeça nas nuvens e sonhava. Voava para bem longe dali. Da pobreza. E pousava no colo da esperança.
sábado, 10 de julho de 2010
Mudança
Hoje, revendo minhas atitudes impulsivas reconheço que mudei bastante. Estava aflita e havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. E talvez ainda existam gotas daquela vontade exacerbada de mudança. De ter e ser tudo que desejo. Mas, nada aconteceu. Decidi mudar. Não mudei ao meu redor mas mudei dentro de mim. E ainda estou mudando. Aceitando. Deixando acontecer. Apaziguando o coração. Deixando de fazer planos e entregando aos dias a responsabilidade pela minha felicidade.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Longe de mim
Aquela tal da ansiedade me viu passando e acenou pra mim. Fingi que nem a conhecia e segui meu caminho. Quem ela pensa que é para se atravessar assim na minha vida? Ela nada mais é do que uma mera sensação difusa, inexplicável. Uma coisinha de nada que coça como piolho na cabeça. A projeção do querer que ainda não foi realizado na sempre iminente espera. Ela é uma cara de pau, vem mansa e rouba seus pensamentos, e até o dinheiro da carteira. Ela me assalta. Desfaz os sonhos e transforma tudo numa sensação inorgânica e ilusória. Essa puta. Ela quer de toda forma sujeitar-me ao abandono. Ao desconhecido. Ela seduz e quer me tocar. Passe bem longe de mim. Do controle.
terça-feira, 6 de julho de 2010
O novo
O que eu sinto hoje não protagoniza cenas de cinema com batida de claquete, "câmera, ação!". Não tem máscaras em bailes ou carnavais. Está longe do romantismo gratuito das frases feitas. Das palavras bêbadas. Sem fratura exposta que se abre no corpo do outro. E não quero nada disso. Tem a resistência involuntária que me mantém de pé e a malemolência do deitar e rolar. Do deixar acontecer. Dos dedos enlaçados. Dos olhos nos olhos. Dos longos beijos. Som de violão. Esse instrumento está marcado na pele do passado e do presente. Mas só agora, escuto o que eu gosto. O som dele é o meu. Do lado A ao lado B. Eu sinto nos meus gestos os gestos dele. A boemia despretensiosa. Palavras são ditas com quietude e sem recusa, elas jogam limpo. Tudo naturalmente, leve, sem planos. Levo nos bolsos do meu jeans o "seja o que Deus quiser". E a cada momento entendo que somos sempre capazes de sentir vibrar o coração quantas vezes a vida achar necessário. O amor é clarividente. Resiliente. Cisma em voltar a bater a porta. E o recebo como velho amigo e sirvo um café com biscoitos. Tenho um papo sério com ele e prometo parar de dizer que existe uma idade certa, tempo certo, local certo, não existe. Existe eu e como eu decido os meus passos. Eu levo o sentir, o ir e vir. É como diz um trecho de um poema de Drummond "O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua". E eu continuo querendo o amor em todos os cantos da minha vida. Entre e fique à vontade.
Pedaços
Meu nome não interessa, muito prazer. Sou essa que você me vê e isso basta. Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar para não me irritar. Não acredito em gnomos e sapos da sorte, mas bruxas existem. Não costumo voltar atrás em histórias já usadas. Sinto falta dos amigos que perdi com a mudanças. Danço sem ritmo e sem medo de pagar mico. Adoro que "Macacos me mordam". Sou de carne e osso, compulsão e atos de impulsão. A todos trato com cordialidade mas não me incomoda ser as vezes uma "persona non grata". Esqueço de cumprir promessas. Sou um grão microscópico no planeta. Não digo "eu te amo" se não me interessa e se interessa digo sem hora ou data marcada. Sou feita de sonhos interrompidos e dos planos que nunca dão certo. Cada pedaço, a vida se encarrega de me fazer feliz.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Sempre Clarice...
"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro"
Clarice Lispetor
domingo, 13 de junho de 2010
Fé
"A fé significa crença no desconhecido, a serena convicção de que, embora você não possa imaginar como, em algum momento, em algum lugar, e da maneira correta, aquilo que você deseja irá acontecer."
Eu acredito nisso...
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Sim, eu te espero
Esperando as palavras. Vocábulos perfeitos que saltam aos olhos. As esperadas e as inesperadas. As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem como fruta madura. Persigo algumas palavras. São tão imprescindíveis que queria poder guardá-las não só na memória mas abraçá-las como um velho amigo. Agarro-as no pulo quando chego mansinho e capturo-as. Sinto cada letra como uma brisa no rosto. E então as revolvo, agito-as, bebo-as e liberto-as. Levo na mala. Levo tudo, todas as palavras ditas e escritas. Tudo está na palavra. Tudo se multiplica. O zelo. Peso. Selo. Sono. O pulo. O grito. Novo solo.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Espera do sim
Fui tecendo, costurando, até que vesti o desejo. Acalentei planos no meu colo e ninei. Pedi aos céus. Confiante, não desci os degraus do sonho e nem deixei resignar-me as concessões. Partilhei esperanças. Santa Clara clareou. Resposta. Ai quem me dera, terminasse essa espera. Expectativa do que eu já sei. Sinto. Espero, por fim, que a ansiedade se recolha. E que venha o êxtase num grito - nós conseguimos!
terça-feira, 1 de junho de 2010
Diferença das diferenças
É importante que cada um tenha as suas idéias formadas, mas é ainda mais importante ser flexível o bastante para ententer o outro, concordando ou não. É preciso (re)conhecer a diferença, principalmente nos relacionamentos onde as discordâncias são tomadas como coisas erradas. É preciso ter um olhar amplo. Nossos objetivos de vida são nossos e particulares, porque neles existem uma história, de avanços e de recuos, até que eles se desenvolvam dentro de nós, e assim somos todos diferentes. As vezes damos a conotação de diferente a algo que nós mesmos fazemos, e julgamos sem olhar para nosso próprio umbigo. Até nas amizades mais intensas, ninguém tem o direito de magoar o outro e apontar as diferenças, pelo "direito adquirido" da severa sinceridade da intimidade. É preciso lembrar que a intimidade começa no respeito. É melhor calar e entender. Afinal, quem tem o poder de decidir o que é certo ou errado?
Eu sei, eu bem sei que é um desafio enorme conviver com as diferenças e eu sou a prova viva de tudo que acabei de falar. Mas, a vida vem me ensinando a ponderar e ver a diferença como algo estimulante. Fui desafiada algumas vezes e vivi situações com pessoas de ritmos e perfis diferentes do meu jeito, e aos trancos e barrancos fui aprendendo a lidar. O que vem acontecendo comigo é que nem sempre o saldo desse aprendizado é positivo, ouvi algumas vezes nos últimos tempos que essa consciência da diferença é omissão. E não é, chama-se tolerância. Respeito as diferenças.
domingo, 30 de maio de 2010
Limpando a casa
A minha casa andava suja, cheia de pó e teias de aranha por todos os lados, parecia até que estava abandonada. E no vazio das salas e quartos, pairava no ar perguntas sem respostas. As cortinas empoeiradas não deixavam dúvidas de que ali não se tinha zelo e nem apego, como a aparência de quem falhou. Dentro daquela casa, quem vivia ali não se importava com quem estava lá fora, ou mesmo dentro. É fácil perder-se naquele emaranhado de coisas espalhadas pelo chão, um desinteresse manso. Desviando subitamente o rosto se via plantas secas em vasos antigos. Cercado por muros imponentes e altos portões, ninguém conseguia ter acesso. O desleixo incomodava mas não era doloroso, pois tudo ali poderia ser melhor. Sentei na soleira da porta e vi no que transformei o meu lar, e me senti submergida de arrependimento. A casa era bonita acima da média, com alicerces firmes e telhados em perfeitas condições. Mesmo assim, eu deixei de vê-la como ela realmente era. Resolvi arregaçar as mangas e limpar tudo. Depois de pensar bastante decidi começar pela cozinha, lá se alimentava o corpo e precisava estar limpa e leve. Faxinei tudo, das paredes até as panelas engorduradas, e de longe já podia se sentir o cheiro das frutas servidas na mesa forrada com uma toalha de uma brancura de arder os olhos. De lá fui ao banheiro, que estava sujo e mal cheiroso, como a saúde de quem não se cuida e se previne. A vassoura foi esfregada no chão com tanta força que ficou um brilho intenso e as latrinas já não mais pareciam saídas de uma porcilga e agora cheiravam a eucalipto. De todo ambiente foram tiradas as teias e qualquer grão de poeira. No quarto, os livros foram limpos e arrumados nas prateleiras como merecem, roupa de cama trocada e esticadinhas como manda o figurino, todas as roupas dobradas e arrumadas na ordem e por cores, e o disco de Vinícius já tocava um samba para voltar a aquecer o coração. Lá estavam guardados todos os meus bens, minha memória e as coisas que eu mais gostava, não podia deixar que meu quarto continuasse escuro, sem vida e em desordem. E em mim, senti voltar a vontade de renovar que estava perdido em algum lugar no meio daquela bagunça. A sala ampla que a tempos já não era mais a mesma, de tantos entulhos e poeira, foi limpa com todo cuidado e detalhe que merece, afinal é lá que se tem a primeira impressão da casa e se recebe os convidados. Foi mudado a posição dos móveis, as plantas regadas, flores recém cochidas enfeitavam a mesa de jantar e a sujeira que era jogada pra baixo do tapete, foi limpa e esquecida como quem quer esquecer um passado triste e viver apenas alegrias. A imagem da sala era outra, revigorada, tão límpida e cheirosa que me deu uma levíssima embriagez com seu novo ar. Pronto, tudo limpo! Dentro da casa sim, mas faltava o jardim, que estava cheio de folhas secas e plantas em estado terminal, como uma decepção com as pessoas que nos rodeiam. Lembrei de como era o jardim antigamente, as plantas eram lindas e com flores de vários tipos e formatos, mas até o belo morre com o descuido. Eu não podia mais deixar isso acontecer. Fiz jardinagem em todo espaço, podei, arrumei, recuperei e tudo foi começando a voltar a ficar verdinho e brotando novas flores, novos amigos. Depois de horas de trabalho, a casa já não era mais a mesma, não estava mais abandonada. Voltou a ter um dono. Agora era ela, a casa que eu sempre vivi, limpa e com tudo em seu devido lugar. Feliz, sentei na rede da varanda e balançando-me com um livro no colo, sem nem ao menos tocá-lo tamanho o êxtase de estar em casa novamente. A casa que eu sempre fui feliz. O meu eu, a minha casa.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
É tanto querer...
Quero doses cavalares de entendendimento. A paciência que eu ainda não consegui ter embalada à vácuo. Ar puro e o cheiro de terra molhada em cápsulas para tomar diariamente e em jejum. Inteligência emocional sabor extra forte. Amor em litros e dinheiro em penca. Quero a leveza do corpo e da alma como uma pena que flutua suavemente pelo ar. O som das palavras amigas em notas musicais. Ansiedade em conta-gotas. Cerveja estupidamente gelada com risadas de tira-gosto. Quero um chocolate sem amargura. Os momentos felizes congelados dentro da geladeira. Ter pele de pêssego. Jogar no lixo o medo e insegurança que já estão com prazo de validade vencidos. Sentir o doce sabor da vitória. Cuspir fora o pessimismo que já está estragado. Quero ver o mar através do óculos escuros Ray Ban. Pisar na grama cor de grana. Ler o livro da minha vida.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Lá vai a burrice
A falta de atenção e a preguiça de pensar me aborrecem profundamente. Isso chama-se burrice. Não a pejorativa. E sim a verdadeira burrice, aquela de quem tem oportunidade de aprender e não se interessa. Aquela que você precisa dizer cinco, dez, mil vezes e a pessoa teima em repetir os erros. Ou nem liga, entra por um ouvido e sai pelo outro. Não quer aprender, pronto acabou. Claro, as vezes as pessoas não tem consciência das suas atitudes e não abraçam as oportunidades por puro desleixo. Não deixa de ser burrice, mas é mais perdoável pois é "sem querer querendo". A vida é feita de oportunidades, e tantos não a tem. Receber informações, aprender, é um bem muito precioso. O mundo não é fácil, e é ainda pior para quem é burro. A burrice comportamental. A preguiça intolerável. Lá vai a burrice...com a "cabeça enfeitada".
segunda-feira, 12 de abril de 2010
A gripe bateu na porta
Faça chuva ou faça sol a gripe me persegue. E quando vira o clima, ela chega de surpresa para me visitar. Visita indesejada que teima em chegar e se alojar, e ainda trás a asma de companhia. E mesmo que eu bote a vassoura atrás da porta ela só vai quando quer. Imunidade baixa que me persegue desde a infância. Moleza e o nariz eternamente vermelho. Vitamina C, Vick, limão com mel e a enterna bombinha de asma. Mas ela só vai quando quer, uma folgada. Vai de reto gripe de um figa!
quinta-feira, 8 de abril de 2010
A irônica leveza do ser
Ando aprendendo a duras penas que ser irônico quase sempre é a melhor opção. Não uma ironia grosseira, agressiva, falsa. Uma ironia fina e hermética. Uma ironia de rir com simpatia quando se quer rir do ridículo. Tratar ainda melhor algum desafeto por uma questão de sobrevivência, claro, com um toque de ironia. Irônico como rebolar no meio de um show de heavy metal. Ironia com um toque suave de entrelinhas, entenda ser puder ou quiser. Sem mordaças, pudores ou mesmo sarcasmo. E é covardia não permitir a ironia alheia, eu permito e retribuo. Sem acidez ou rancor. Porque a ironia nada mais é que uma ofensa disfarçada num sorriso.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Preciso
Preciso. Paciência com quem só faz atrapalhar. Paciência para não me irritar com a lentidão das pessoas. Paciência para esperar o que teima em atrasar. Paciência para emagrecer quilo após quilo. Paciência para aguentar essa calor escaldante. Paciência para esperar o amor da minha vida. Paciência para não mandar as pessoas maldosas do meu trabalho tomarem no cú.
Preciso. Ter um ovo. Um saco com hidrocele batendo no joelho para ter paciência.
Não tenho ovo, mas tenho mente.
domingo, 4 de abril de 2010
Quem sou eu?
Ando existindo. Eu sou. Existo e não deixo barato. Vou fundo em tudo que me disponho a fazer. Eu faço e minha cabeça teima em desfazer. E repito os erros até acertar. Eu ando de ônibus, dou largos passos pelas ruas, deito na minha cama e penso alto. Eu sou alta. No alto dos meus sonhos. E ponho meus sonhos num altar. E rezo por eles. Eu passo pelas mesmas ruas todos os dias, e sempre sou outra. E as ruas continuam as mesmas. E não crio raízes no chão. Enraizada estou nos meus pensamentos. E o meu mundo não acaba em lugar nenhum. Nem dobra a esquina. Eu pressuponho quem sou eu, mas nem eu mesmo sei. Sou aquela da foto 3X4 de cara séria do RG. A simples existência sou eu, e essa é a minha esfera mais profunda. Eu posso fazer um gesto. Então posso dizer: “Quero dizer isso” e nem querer dizer. Me contradizer. Eu posso mostrar o corpo. Posso me cobrir de vergonha. E rir. "Eu sou", é só útil para esclarecer, apenas um símbolo linguístico. Consciência não contaminada, nova, virgem, castra. Eu sou o que quero ser.
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